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A criação da "Paixão segundo São João": o desafio de Bach em Leipzig

Atualizado: 1 de abr.

Manuscrito original da Paixão Segundo São João BWV 245 de Johann Sebastian Bach, datado de 1724.

Em março de 1724, Bach enfrentava uma rotina de criação exaustiva e conflitos institucionais na estreia de uma de suas obras mais monumentais.

A aproximação da Sexta-feira Santa exigia a composição e a organização logística de uma obra de proporções inéditas para a cidade: a Paixão segundo São João (BWV 245).


Como aponta o especialista Peter Williams em J.S. Bach: A Life in Music, o primeiro ano de Bach em Leipzig exigiu a produção implacável de uma nova cantata por semana. Produzir uma Paixão desta escala no meio desse ciclo exigiu um esforço hercúleo.


Entre o recrutamento de músicos, a cópia manual de dezenas de partituras e os ensaios exaustivos com o coro de meninos da Thomasschule, ele operava no limite de sua capacidade produtiva. A sua própria família (incluindo Anna Magdalena) e os seus alunos foram mobilizados como copistas, extraindo as partes instrumentais e vocais à pressa, frequentemente à luz de velas, para que a tinta secasse a tempo dos ensaios.


A Animação: Episódio #22 - The St John Passion

No vídeo, você pode acompanhar o episódio da série Bach The Animated Series que apresenta uma representação visual desse momento crítico na vida do compositor, mostrando os bastidores e o peso da criação de sua primeira grande Paixão em Leipzig.


Sobre a série "Bach The Animated Series"

Este episódio integra a série independente criada e animada pelo artista Peter Fielding. Nascido em Flandres e radicado na Itália, Fielding explorou a biografia de Johann Sebastian Bach através de uma narrativa visual que humaniza os desafios do compositor. A Bach Society Brasil apresenta os vídeos da série como parte de sua iniciativa de divulgação.


O conflito de última hora: Thomaskirche vs. Nikolaikirche

A pressão sobre Bach não era apenas musical, mas burocrática e política. A tradição de Leipzig ditava que a apresentação da Paixão na Sexta-feira Santa deveria alternar anualmente entre as duas igrejas principais da cidade. Em 1724, era a vez da Nikolaikirche (Igreja de São Nicolau). No entanto, Bach havia planejado e preparado a execução para a Thomaskirche (Igreja de São Tomás), cujas instalações, incluindo o coro e o órgão, eram mais adequadas para a grandiosidade de suas forças musicais.

O Conselho Municipal interveio de forma rigorosa e ordenou que Bach movesse a apresentação para a Nikolaikirche, a fim de respeitar o rodízio. Bach protestou oficialmente, argumentando que o espaço do coro na Nikolaikirche era insuficiente para acomodar seus músicos e que o cravo do local estava em péssimo estado de conservação. O conselho foi irredutível, mas cedeu apenas o suficiente para providenciar, às pressas, o conserto do instrumento e ordenar o alargamento da galeria do coro em São Nicolau para que a obra pudesse ser executada. Esse desgaste burocrático, a dias da estreia, adicionou uma camada de tensão brutal ao processo de montagem.

Partitura manuscrita antiga com caligrafia musical densa em tons de sépia e papel envelhecido. O documento exibe pautas musicais preenchidas com notas, ligaduras e anotações barrocas, evidenciando o uso contínuo e as revisões feitas por Johann Sebastian Bach ao longo de 25 anos.
Esta página é um documento "vivo": ela foi utilizada em todas as quatro apresentações da Paixão Segundo São Joãoregidas por Bach entre 1724 e 1749, recebendo ajustes e camadas de interpretação em cada uma delas. Nas primeiras oito pautas, observa-se a conclusão da ária para tenor "Ach, mein Sinn", em sua versão original da estreia de 1724. (Fonte: Carus-Verlag).

O drama visceral: um "teatro" na igreja

Apesar das adversidades logísticas, a obra que ecoou pelas paredes da Nikolaikirche naquele dia 7 de abril mudou a história da música sacra. Para compreender a magnitude deste momento, é preciso olhar para a obra não apenas como um serviço religioso, mas como uma revolução narrativa.

Conhecida como Johannes-Passion, é estruturada em duas partes, concebidas originalmente para serem intercaladas por um sermão na liturgia de Leipzig. A obra utiliza o texto bíblico do Evangelho de João como espinha dorsal para elevar o drama teológico a níveis de sofisticação contrapontística sem precedentes.

O maestro e biógrafo John Eliot Gardiner, em seu livro Bach: Music in the Castle of Heaven, destaca que a Paixão segundo São João traz uma intensidade quase operática e visceral para a liturgia de Leipzig. Bach funde a tradição narrativa alemã com a vanguarda do estilo operístico italiano, criando uma arquitetura que envolve o público em uma exegese musical do sofrimento e triunfo de Cristo.

Ao contrário da posterior Paixão Segundo São Mateus, que possui um caráter mais contemplativo e panorâmico, a obra de 1724 é imediata, violenta e teatral. Gardiner argumenta que Bach utilizou a sua música para fazer com que a congregação deixasse de ser uma mera espectadora passiva do relato bíblico e passasse a sentir-se cúmplice e parte integrante do drama humano e espiritual.Os solistas interpretam o Evangelista (que narra a história) e os protagonistas (Jesus, Pedro, Pilatos...), enquanto o coro representa grupos dentro da história (soldados, fariseus, servos do sumo sacerdote, …), mas também a consciência da própria congregação que assiste.

A complexidade dessa construção revela-se também no equilíbrio entre o relato histórico e a reflexão subjetiva. Enquanto o Evangelista conduz a narrativa com agilidade rítmica, as árias e os corais oferecem pausas para que o ouvinte processe o impacto emocional dos eventos. Bach utiliza harmonias cromáticas e modulações inesperadas para traduzir a angústia da Paixão, organizando-as em uma estrutura de simetria rigorosa que ordena o caos do drama humano. Essa dualidade entre a urgência do sofrimento e a perfeição da arquitetura musical é o que confere à obra sua força perene e impacto espiritual.


Estrutura quiástica 

Uma descoberta do musicólogo Friedrich Svend é a estrutura quiástica (ou especular) da obra. Bach desenhou a partitura como um espelho, onde as seções se refletem em torno de um eixo central, formando um "X" (referência à letra grega χ, ou Chi). O coração desse espelho é o coral Durch dein Gefängnis, Gottes Sohn (Através da tua prisão, Filho de Deus). Ao colocar este coral no centro exato do bloco do julgamento, o compositor utiliza usa a forma musical para afirmar que a prisão de Cristo é o ponto central da redenção, organizando o caos do julgamento em uma ordem divina perfeita.


Escuta Sugerida:


Nesta ária, Bach utiliza duas flautas em um diálogo saltitante com a voz, simbolizando o ato de seguir os passos de Cristo com alegria e determinação. A interpretação luminosa da soprano Marília Vargas, acompanhada pela orquestra da Bach Society Brasil com instrumentos de época, revela a delicadeza técnica que Bach exigia de seus músicos mesmo sob a pressão de uma estreia caótica. Note como a articulação das flautas e a agilidade vocal criam uma sensação de movimento constante — uma "caminhada" musical que é marca registrada do gênio de Leipzig.


O coral final da Paixão Segundo São João — "Descansai bem, santos ossos" — é o encerramento da obra que Bach ensaiou exaustivamente em março de 1724 para a estreia na Sexta-feira Santa. Wolff (p. 268) descreve os meses de preparação com o coro da Thomasschule como o momento em que Bach impôs a seus alunos uma exigência vocal sem precedente em Leipzig. Este coral conclusivo condensa toda a grandeza narrativa da Paixão numa frase de adeus: a escuta ideal para sentir o peso do que Bach entregou naquela noite. Esta é uma gravação da Bach Society Brasil em instrumentos de época, interpretada pelo Ensemble Bach Brasil e Madrigal l’Orfeo, sob direção de Fernando Cordella.



Bach The Animated Series: Real ou Ficção?

A animação foca-se nas noites passadas em claro por Bach, copiando e organizando partituras ao lado de sua família e alunos. Historicamente, isto é absolutamente real. Os manuscritos que sobrevivem revelam a caligrafia apressada da equipe do compositor. O conflito com as autoridades eclesiásticas e municipais, retratado como um momento de tensão institucional, também reflete com precisão os impasses documentados e o embate de Bach na defesa de suas condições de trabalho na cidade.


Referências Bibliográficas

BACH-ARCHIV LEIPZIG. Calendarium: A Timeline of the Life of Johann Sebastian Bach. DAVID, Hans T.; MENDEL, Arthur; WOLFF, Christoph (Ed.). The New Bach Reader: A Life of Johann Sebastian Bach in Letters and Documents. New York: W. W. Norton & Company, 1998. GARDINER, John Eliot. Bach: Music in the Castle of Heaven. New York: Alfred A. Knopf, 2013. WILLIAMS, Peter. J. S. Bach: A Life in Music. Cambridge: Cambridge University Press, 2007. WOLFF, Christoph. Johann Sebastian Bach: The Learned Musician. New York: W. W. Norton & Company, 2000.


3 comentários


Rúbia Vogt
07 de abr.

Excelente texto, em linguagem acessível aos leigos, mas sem perder a qualidade que Bach sempre requer!

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Gustavo Andrade
17 de mar.

Obrigado pelo artigo, bom material para a preparação da audição da paixão esta semana! Será que vocês podem compartilhar a fonte, referências, para a obra onde vocês encontram a atribuição à Friedrich Svend da estrutura quiástica? Obrigado!

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Sylvia Bartsch
11 de mar.

Desde o período de Johann Sebastian Bach até hoje a Música erudita e clássica fica subjugada à Política, interesses comerciais entre outros, os quais nada ou muito pouco entendem sobre uma montagem em locais inadequados e o quão enorme é o prejuízo com a falta de entendimento do público, o som sem alcançar o nível desejado pelo autor ou instrumentista, cuja autoria também não é remunerada em conformidade a qualidade merecida. Há que se devolver ao conhecimento aulas de música e história da música.


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