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Vivaldi foi professor de Bach? A influência veneziana e a evolução do concerto

Imagem de IA de Bach estudando Vivaldi

Por volta de 1713, num pequeno ducado da Turíngia, um organista de menos de trinta anos debruçou-se sobre concertos recém-chegados de Veneza e começou a copiá-los, nota por nota.

O organista se chamava Johann Sebastian Bach. A música era de Antonio Vivaldi. Desse encontro nasceu uma das mais fascinantes histórias de influência da música ocidental: a de que foi com o veneziano que Bach aprendeu a pensar como compositor.


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Vivaldi, o arquiteto do concerto

Quando esses concertos chegaram a Weimar, Vivaldi já era o nome mais célebre da música instrumental europeia — e o principal responsável por transformar o concerto num dos gêneros centrais do Barroco.

Quem foi Antonio Vivaldi?

Antonio Vivaldi (Veneza, 1678 – Viena, 1741) foi ordenado padre em 1703 e logo deixou de celebrar missa, alegando uma condição no peito que dizia tê-lo acompanhado desde o nascimento; dedicou-se inteiramente à música. Pelos cabelos ruivos, ficou conhecido como il Prete Rosso, o Padre Vermelho. Por quase quatro décadas foi mestre de música no Ospedale della Pietà, um asilo veneziano para meninas órfãs, ilegítimas e abandonadas, cuja orquestra e coro femininos eram atração turística da Europa. Deixou cerca de quinhentos concertos e morreu pobre e esquecido em Viena.

Para conhecer a vida de Vivaldi em detalhe — os escândalos, o ensino na Pietà e a gênese das Quatro Estações —, leia "Antonio Vivaldi e As Quatro Estações" no blog da Bach Society Brasil.

Interior barroco da igreja da Pietà em Veneza.
Interior da chiesa di Santa Maria della Pietà, em Veneza, onde Vivaldi atuou como mestre de música a partir de 1703.

O concerto não nasceu com Vivaldi. Nas últimas décadas do século XVII, a música instrumental conquistava autonomia e prestígio. As harmonias dinâmicas de Arcangelo Corelli — o encadeamento por ciclo de quintas, reforçado por sequências melódicas e suspensões — tornaram-se o motor das formas tonais. Era uma música que passava a exigir escuta atenta: atribui-se ao acadêmico Bernard de Fontenelle a exclamação "Sonata, o que queres de mim?", registrada por Rousseau em seu Dictionnaire de musique (1768).

O concerto grosso de Corelli dialogava entre um grupo de solistas — o concertino — e a orquestra de cordas, o ripieno. A virada veio de Bolonha, com o violinista Giuseppe Torelli, e da Veneza de Tomaso Albinoni: o concerto solo, em que a alternância entre tutti e solista passou a ser estrutura, não mero efeito sonoro.


Esse novo concerto adotou a lógica tripartite rápido–lento–rápido. No coração dos movimentos rápidos está a forma ritornello: um refrão orquestral reaparece ao longo do movimento, encurtado e em tonalidades diferentes, alternando-se com episódios do solista. O ritornello fixa e unifica; os episódios modulam e exibem a invenção.

Foi Vivaldi quem transformou esse esquema num modelo universal. Torelli e Albinoni lançaram as bases; o veneziano lhes deu coerência, energia e uma alegria quase física. Em cerca de quinhentos concertos, fixou o desenho — claro, dramático, eficiente — que orquestraria boa parte da música do século XVIII.



A coletânea de concertos

Em 1711, o editor holandês Estienne Roger publicou em Amsterdã a primeira coletânea de concertos de Vivaldi, doze peças reunidas sob o título L'estro armonico — "a inspiração harmônica". A coleção foi reimpressa em pelo menos quatorze edições nas décadas seguintes e levou o nome de Vivaldi a toda a Europa.


Página de rosto do L'estro armonico em tipografia de época.
Folha de rosto da primeira edição do L'estro armonico (op. 3), Estienne Roger, Amsterdã, 1711.

Para medir o impacto, vale lembrar como a música circulava então. Imprimir partituras era caro e trabalhoso, e boa parte da música instrumental corria em cópias manuscritas. Publicar com Estienne Roger, especializado na gravação de música moderna em Amsterdã, era sinal de ambição internacional. Foi por esse circuito editorial que a música de Vivaldi atravessou fronteiras e chegou a uma corte protestante da Turíngia.


E ali, em Weimar — onde era organista e, a partir de 1714, Konzertmeister (primeiro-violino e diretor da música instrumental) —, Bach não se limitou a admirar. Entre 1713 e 1714, transcreveu para teclado cerca de vinte concertos italianos. Nove dessas transcrições são de concertos de Vivaldi, e cinco saíram justamente do L'estro armonico. Copiar a música alheia era, para Bach, um modo de desmontar o mecanismo por dentro.


A Bach Society Brasil tem em seu acervo um exemplo vivo desse hábito: a transcrição que Bach fez para teclado de um concerto para oboé de Alessandro Marcello (BWV 974), outro veneziano da geração de Vivaldi, gravada ao cravo por Fernando Cordella. Ouvi-la é escutar o que significava para Bach "ler" um concerto italiano com as próprias mãos.





Bach e Vivaldi: aprendizado a distância

A história de que Vivaldi "ensinou Bach a compor" tem autor e data. Foi Johann Nikolaus Forkel, o primeiro biógrafo de Bach, quem a fixou em 1802: segundo ele, ao copiar os concertos de Vivaldi, Bach teria aprendido que "deve haver ordem, conexão e proporção" — em alemão, Ordnung, Zusammenhang e Verhältnis.


A pesquisa moderna corrige os exageros. Bach não transcreveu só concertos de Vivaldi: há também transcrições de Telemann e do príncipe Johann Ernst de Weimar. Mas o núcleo da história resiste: como sintetiza o musicólogo Christoph Wolff, o estudo de Vivaldi foi "um momento crítico, talvez o ponto culminante" do aprendizado autodidata de Bach.

A expressão que dá nome a este texto ecoa o título de uma coleção tardia de Vivaldi, Il cimento dell'armonia e dell'inventione (1725) — aquela que se abre com As Quatro Estações. É um bom resumo do que estava em jogo: a arte de combinar ordem (harmonia) e imaginação (invenção).


Folha de rosto de Il cimento dell'armonia e dell'inventione (1725), de Vivaldi
Folha de rosto de Il cimento dell'armonia e dell'inventione (1725), de Vivaldi


A redescoberta de Vivaldi

Há uma ironia que fecha o círculo. Durante quase todo o século XIX, o interesse por Vivaldi sobreviveu através de Bach. A própria transcrição que Bach fez do concerto mais célebre do L'estro armonico, o BWV 596, chegou a ser publicada em 1844 como obra de Wilhelm Friedemann Bach; o engano só foi corrigido em 1911.

A seguir, três obras para escutar de perto essa história: dois concertos de Vivaldi e a cantata em que o discípulo já fala o italiano com voz própria.




Sugestões de Escuta


RV 565: o concerto que Bach copiou

Dentro do L'estro armonico, o Concerto em Ré menor, RV 565 é o mais famoso — e o mais decisivo para esta história. Sua estrutura é incomum: introdução em colcheias pulsantes, transição em adágio e fuga radiante, seguidas de uma ampla Siciliana (Largo e Spiccato) — um dos primeiros grandes movimentos lentos confiados a um solo cantante.

Foi exatamente este concerto que Bach transcreveu para órgão solo, como o Concerto em Ré menor, BWV 596. Ouvir as duas versões lado a lado é ver, no mesmo gesto, a matéria-prima e o resultado do estudo.


A transcrição de Bach — BWV 596 sobre o RV 565 de Vivaldi — ao órgão, por Leo van Doeselaar (Netherlands Bach Society / All of Bach).



RV 436: Vivaldi e a flauta nova

A flauta transversal — o traverso, antepassado da flauta moderna — era instrumento novo na Itália no início do século XVIII. O Concerto em Sol maior, RV 436, tem três movimentos Allegro–Largo–Allegro, com o Largo central expondo a flauta em linha cantabile sobre acompanhamento reduzido.


Vivaldi, Concerto para flauta em Sol maior, RV 436, pela Capella Savaria em instrumentos de época. (Fonte: YouTube / Capella Savaria.)


BWV 199: o discípulo, já senhor do estilo italiano

Se o L'estro armonico é a lição, a cantata Mein Herze schwimmt im Blut, BWV 199, é o fruto. Cantata-solo para soprano, oboé, cordas e contínuo, escrita em Weimar sobre texto de Georg Christian Lehms — a nova poesia sacra que trouxe para a música de igreja a dramaturgia da ópera italiana.


A cantata percorre um arco emocional em oito movimentos: do desespero à exultação. Vale prestar atenção à ária Stumme Seufzer, stille Klagen ("suspiros mudos, queixas silenciosas"), com o oboé traduzindo a dor; e ao coral Ich, dein betrübtes Kind, em que o soprano se entrelaça a uma viola solo obbligata, escolha de cor incomum e comovente.


Bach, cantata Mein Herze schwimmt im Blut, BWV 199, com a soprano Julia Doyle e o oboísta Alfredo Bernardini, pela Netherlands Bach Society (All of Bach).



Referências Bibliográficas

HELLER, Karl. Antonio Vivaldi: The Red Priest of Venice. Portland: Amadeus Press, 2003.

WOLFF, Christoph. Johann Sebastian Bach: The Learned Musician. New York: W. W. Norton & Company, 2000.

WILLIAMS, Peter. J. S. Bach: A Life in Music. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

TARUSKIN, Richard. The Oxford History of Western Music. Oxford: Oxford University Press, 2005.

DAVID, Hans T.; MENDEL, Arthur; WOLFF, Christoph (Ed.). The New Bach Reader: A Life of Johann Sebastian Bach in Letters and Documents. New York: W. W. Norton & Company, 1998.

BACH-ARCHIV LEIPZIG. Calendarium: A Timeline of the Life of Johann Sebastian Bach. Disponível em: https://jsbach.de/en/calendarium.

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