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A origem do famoso retrato a óleo de Johann Sebastian Bach: a admissão na Sociedade Mizler

Pintando o retrato de Bach.

Em junho de 1747, Johann Sebastian Bach foi oficialmente aceito como o 14º membro da prestigiada Societät der musikalischen Wissenschaften (Sociedade de Ciências Musicais), fundada por seu ex-aluno Lorenz Christoph Mizler.


Para ingressar, o candidato precisava cumprir requisitos rigorosos: além da submissão de uma composição teórica que comprovasse sua maestria, era necessária a entrega de um retrato a óleo que tornou-se a principal referência visual que temos do compositor.


A Sociedade Mizler

A Sociedade Mizler não era para amadores; era um círculo de elite que buscava reafirmar a música como parte do Quadrivium — as quatro artes liberais matemáticas da antiguidade. Ela reunia intelectuais que enxergavam a música não apenas como entretenimento galante, mas como uma verdadeira disciplina científica, profundamente ligada à matemática. Entre seus membros figuravam gigantes como Georg Philipp Telemann (membro nº 6) e George Frideric Handel (membro nº 11). Para esses homens, a harmonia musical era um reflexo direto da ordem divina do universo.


A matemática na música não era entendida como um exercício frio de cálculo, mas como a "ciência das proporções". Acreditava-se que as leis que governam os intervalos musicais eram as mesmas que regiam o movimento dos planetas e a geometria da natureza. O New Bach Reader (Doc. 238) relata a recepção de Bach na sociedade, destacando que sua admissão não foi apenas por sua fama, mas por sua capacidade sem igual de transformar essas verdades matemáticas em estruturas sonoras vivas, provando que a música era a "ciência dos sons em relação à harmonia e ao ritmo".


Em 1738, o acadêmico Johann Abraham Birnbaum defendeu Bach de críticos que consideravam seu estilo excessivamente complexo. Recorrendo a ideias de teólogos e filósofos da época, Birnbaum argumentou que a harmonia de Bach — com suas vozes múltiplas que "trabalham maravilhosamente umas nas outras e ao redor umas das outras, sem a menor confusão" — era um espelho da própria perfeição divina. Georg Venzky, outro membro da Sociedade de Mizler, resumia essa filosofia: "Deus é um ser harmônico. Toda harmonia se origina de sua ordem sábia... Para a beleza e a perfeição, consiste a conformidade na diversidade." Para a Sociedade e para Bach, o contraponto denso não era um defeito a ser evitado, mas a mais sublime imitação das leis da própria natureza.


 Retrato de Johann Sebastian Bach por Elias Gottlob Haussmann (1748), segurando partitura do Cânone Triplo BWV 1076.
Retrato de Johann Sebastian Bach por Elias Gottlob Haussmann (1748), segurando partitura do Cânone Triplo BWV 1076. Fonte: Bach-Archiv Leipzig / Domínio Público

O famoso retrato de Haussmann: a imagem oficial de Johann Sebastian Bach

A imagem que hoje domina nosso imaginário sobre Johann Sebastian Bach — o senhor de peruca branca, expressão severa e olhar penetrante — não é um instantâneo casual. Trata-se do retrato pintado por Elias Gottlob Haussmann (1746), encomendado especificamente para o processo de admissão na Sociedade de Mizler. Era uma exigência da instituição que todos os membros tivessem seus retratos preservados em sua sede para estudos e arquivo.


Haussmann era o pintor oficial da cidade de Leipzig (Hofmaler), conhecido por retratar a elite mercantil e acadêmica com realismo e dignidade. O fato de Bach ter posado para ele (existem duas versões, a de 1746 e uma réplica de 1748) demonstra a importância institucional do evento. Há documentos que confirmam que Bach pagou pela pintura e pela gravação do seu cânone como parte de suas obrigações de ingresso.


No retrato, Bach não segura um instrumento, mas sim a partitura de um de seus mais engenhosos enigmas musicais: o Cânone Triplo a 6 Vozes (BWV 1076). Christoph Wolff aponta que essa escolha não foi acidental. Ao exibir o cânone na pintura, Bach apresentava suas credenciais aos acadêmicos de Leipzig, afirmando-se como um verdadeiro arquiteto da polifonia, para quem a criação musical era a suprema manifestação da ordem e da proporção.


Detalhe em close-up de uma pintura a óleo clássica mostrando a mão de um homem segurando uma pequena folha de papel musical. No manuscrito, é possível ler a inscrição em latim "Canon triplex a 6 voc." escrita acima de três pautas musicais curtas com notas desenhadas com precisão matemática.
Detalhe do retrato de Johann Sebastian Bach pintado por Elias Gottlob Haussmann (versão de 1748). Nas mãos, o mestre exibe o manuscrito do "Cânone Triplo a 6 Vozes" (BWV 1076). Muito mais do que um simples adereço visual, este enigma musical foi o "cartão de visitas" de Bach para a admissão na Sociedade de Mizler, provando aos acadêmicos que a sua arte era a suprema união entre a inspiração e a ciência matemática. (Fonte: Domínio Público).

As Variações Canônicas: a música como ciência exata

Além do retrato, a Sociedade exigia a apresentação de uma obra teórica ou de grande complexidade técnica. A contribuição de Bach foi a obra Variações Canônicas sobre "Vom Himmel hoch da komm ich her" (BWV 769). Trata-se de um conjunto de variações brilhantes para órgão baseadas em um famoso hino luterano de Natal, elevando a técnica do cânone a limites extremos.


Nesta composição, Bach funde a emoção devocional da melodia de Martinho Lutero com a precisão matemática exigida por Mizler, através do uso de cânones em diferentes intervalos e movimentos. Um exemplo fascinante é a Quinta Variação (L'altra sorte del canone), onde Bach utiliza o cânone por inversão (al rovescio). Nesta seção, os intervalos da melodia são espelhados: se a voz principal sobe uma terça, a voz canônica desce uma terça. No clímax desta variação, Bach sobrepõe o tema do coral em quatro velocidades e direções diferentes simultaneamente, uma proeza de engenharia musical que desafia a percepção humana e reafirma a soberania do contraponto.


O simbolismo da 14ª cadeira

A ironia da história é que Bach só concordou em entrar na Sociedade quase uma década após sua fundação (1738). Quando entrou, o fez com um toque de inteligência e mistério. Alguns historiadores sugerem que ele esperou intencionalmente para ocupar a 14ª cadeira. Para um compositor apaixonado pela relação entre notas musicais, números e letras, o número 14 carregava um significado especial: representava a soma numérica das letras de seu sobrenome (B=2, A=1, C=3, H=8).


Para John Eliot Gardiner, esse ingresso tardio e calculado reflete o isolamento deliberado do 'velho Bach' em seus anos finais. Gardiner sugere que, ao se unir a esse círculo intelectual, Bach não buscava apenas validação acadêmica, mas sim estabelecer um baluarte contra a crescente futilidade do estilo galante que dominava a Europa. Ao ocupar seu lugar na Sociedade como o 14º membro, Bach estava, na visão de Gardiner, selando seu legado como o guardião de uma 'ciência musical' que ele considerava sagrada e imutável. Era o seu modo silencioso, porém definitivo, de provar que sua arte não era uma relíquia obsoleta, mas uma verdade eterna e matematicamente inquestionável.



No vídeo abaixo, você pode acompanhar o episódio #26 da série Bach: The Animated Series, que retrata a decisão de Bach de se candidatar à prestigiada instituição e os bastidores para providenciar um retrato formal como parte do processo de admissão.



Este episódio integra a série independente criada e animada pelo artista Peter Fielding. Nascido em Flandres e radicado na Itália, Fielding explorou a biografia de Johann Sebastian Bach através de uma narrativa visual que humaniza os desafios do compositor.

A Bach Society Brasil apresenta os vídeos da série como parte de sua iniciativa de divulgação. Para compreender os bastidores da produção e o processo criativo do autor, leia nossa [entrevista exclusiva com Peter Fielding].


Real ou Ficção?

A animação ilustra o esforço de Bach para providenciar o retrato e sua interação com as exigências da admissão. Os dados históricos, consolidados por Christoph Wolff (p. 431), confirmam que Bach, em junho de 1747, ingressou como o 14º membro da organização, juntando-se a figuras como Georg Philipp Telemann e George Frideric Handel, que já integravam o grupo de excelência.



Escuta Sugerida

Como a obra submetida à Sociedade de Mizler para selar o seu ingresso em junho de 1747, as Variações Canônicas representam o ponto de convergência entre o brilhantismo artístico e o raciocínio matemático que a instituição exigia de seus membros. Ouça a complexidade estrutural que impressionou a academia alemã.


A Trio Sonata No. 5 BWV 529 é a outra demonstração eloquente do ideal matemático tão caro a Bach e à Sociedade de Mizler.



Referências Bibliográficas

BACH-ARCHIV LEIPZIG. Calendarium: A Timeline of the Life of Johann Sebastian Bach.

GARDINER, John Eliot. Bach: Music in the Castle of Heaven. New York: Alfred A. Knopf, 2013.

WILLIAMS, Peter. J. S. Bach: A Life in Music. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

WOLFF, Christoph. Johann Sebastian Bach: The Learned Musician. New York: W. W. Norton & Company, 2000.


Produção Audiovisual: FIELDING, Peter. Bach: The Animated Series. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/@BachTheAnimatedSeries

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