O guia que Vivaldi escreveu para interpretar "As Quatro Estações"

Em 1725, quando As Quatro Estações saíram impressas em Amsterdam, Vivaldi indicou na partitura as imagens da natureza que quis evocar com a música: o canto dos pássaros, o trovão, o pastor que dorme com o cão ao lado, os dentes que batem de frio. Neste post, percorremos esse guia de escuta deixado pelo próprio compositor, estação por estação, para ouvir a obra como ele quis que fosse ouvida.
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Pintando as Quatro Estações com sons
Imitar a natureza com instrumentos era comum na música barroca. Pássaros, tempestades e batalhas apareciam com frequência na música da época, e o público sabia reconhecê-los. Antonio Vivaldi levou esse jogo a sério no conjunto de concertos para violino que ficaram conhecidos como As Quatro Estações. Para cada um deles, escreveu um soneto, um poema de catorze versos, e fez da música uma ilustração desse poema, verso a verso.
Os quatro concertos já circulavam havia anos em cópias manuscritas quando Vivaldi decidiu publicá-los. Na edição, ele acrescentou o que chamou, na dedicatória ao conde boêmio Wenzel von Morzin, de "uma declaração muito clara de todas as coisas que nelas se explicam". Cada verso do soneto ganhou uma letra à margem, e a mesma letra reaparecia na partitura, no ponto exato em que a música pintava aquela imagem. Sobre as notas, vinham ainda legendas curtas: na parte da viola, por exemplo, está escrito Il cane che grida, o cão que late. O guia foi impresso para quem tocava. A edição saiu em partes separadas, uma para cada instrumento, e os quatro sonetos vinham na parte do violino solista. Os músicos sabiam, a cada trecho, o que a música estava descrevendo.
Ninguém assinou os poemas. Tudo indica que são do próprio Vivaldi: trazem palavras do dialeto de Veneza com a mesma grafia das cartas do compositor. São versos simples, de quem escrevia música melhor do que poesia, e funcionam exatamente para isso: dizer ao ouvinte onde olhar.
Quem foi Antonio Vivaldi?
Padre veneziano conhecido como o Padre Vermelho pelos cabelos ruivos, Vivaldi passou mais de três décadas como professor e diretor musical do Ospedale della Pietà, uma casa que acolhia meninas órfãs e abandonadas e fez delas uma das orquestras mais admiradas da Europa. A vida dele está no post Antonio Vivaldi e "As Quatro Estações": uma vida de ensino, escândalos e genialidade musical.

O guia de escuta para As Quatro Estações de Vivaldi
A seguir, exploramos todas as indicações de Vivaldi, estação por estação: o trecho do soneto de cada movimento e, em seguida, o que a música pinta em cada uma das indicações.
Se preferir ler em PDF, preparamos versões desktop e celular do guia. Cada figura traz a letra que Vivaldi pôs no soneto e na partitura, o verso original em italiano e o trecho da partitura com as camadas numeradas, cada uma em uma cor. A lista logo abaixo diz o que cada número representa.
A Primavera de Vivaldi: pássaros, trovões e o cão do pastor
I. Allegro
Chegada é a primavera e, festejando, Os pássaros a louvam com ledo canto; As fontes correm com doce murmúrio Aos suspiros dos ventos zéfiros. Vêm cobrir o ar de um negro manto Raios e trovões, eleitos como arautos, E, calados eles, voltam as avezinhas Inda uma vez ao seu canoro encanto.

A primavera: a orquestra inteira toca junta o tema festivo, que volta como refrão ao longo do movimento.
O concerto abre com a orquestra inteira em festa: é a primavera que chega, com o tema que todo mundo conhece. Esse tema vai voltar várias vezes ao longo do movimento, como um refrão, e entre um retorno e outro a música conta o que acontece no poema. Primeiro vêm os pássaros, que os violinos solistas imitam em trinados. Depois, as fontes: a orquestra baixa o volume numa passagem suave e doce, que escorre como água. De repente o céu escurece. Os instrumentos graves tremulam como trovões distantes, e o violino solista dispara escalas rápidas, que são os relâmpagos. Passada a tempestade, os pássaros voltam a cantar em trinados agudos, e a primavera retoma o seu refrão.
II. Largo
E assim, sobre o florido e ameno prado, Ao caro murmúrio de folhas e touceiras, Dorme o pastor, com o fiel sabujo ao lado.

O pastor: o violino solista toca uma melodia lenta e tranquila.
As folhas: os violinos fazem um murmúrio contínuo.
O cão: a viola repete duas notas fortes, sempre iguais (na partitura, Il cane che grida).
O movimento lento é uma pequena pintura em três camadas. O violino solista toca uma melodia lenta e tranquila: é o pastor que dorme no prado. Os outros violinos fazem o murmúrio das folhas. E a viola, sozinha, repete o tempo todo duas notas fortes, sempre iguais: é o cachorro latindo ao lado do dono, que dorme em paz por cima de tudo isso.
III. Danza pastorale
Ao som festivo de gaitas pastorais, Dançam ninfas e pastores sob a cara copa, Na primavera de luminoso aspecto.

A dança: o violino solista e os violinos tocam a melodia em terças, duas vozes juntas.
A gaita de foles: a viola e o baixo sustentam uma nota longa e contínua, o bordão.
A estação termina em festa no campo. Os instrumentos graves sustentam uma nota longa e contínua, como o bordão de uma gaita de foles; por cima, a melodia anda em terças, duas vozes juntas, como os instrumentos populares tocavam. O ritmo balançado é o de uma dança pastoral, e ninfas e pastores dançam até o fim.
O Verão: calor, o canto do cuco e a tempestade
I. Allegro non molto
Na dura estação incendida pelo sol, Abate-se homem e gado, arde o pinho; Solta a voz o cuco, e logo se faz ouvir O canto da pomba e do pintassilgo. Zéfiro sopra suave, mas de chofre Bóreas, seu vizinho, lhe lança desafio; E chora o pastorzinho, pois a ameaça Teme de fera borrasca e o seu destino.

Zéfiro, o vento do oeste: os violinos fazem ondulações suaves, em piano.
Bóreas, o vento do norte: a orquestra inteira entra em rajadas fortes (Vento Borea).
O Verão começa sem forças. As frases descem cansadas e param a todo momento, como quem mal consegue se mexer debaixo do sol. Então os pássaros despertam um a um no violino solista: primeiro o cuco, em notas rápidas e repetidas; depois a rolinha, num solo lento; por fim o pintassilgo, em trinados. Uma brisa leve passa nas ondulações suaves dos violinos: é o Zéfiro, o vento do oeste. Logo o Bóreas, o vento do norte, entra em rajadas fortes da orquestra inteira. O violino solista então chora: é o lamento do camponês que sabe o que vem por aí e teme pela colheita, até que outra rajada da orquestra o interrompe.
II. Adagio · Presto
Rouba aos membros lassos seu repouso O medo dos raios, e ferozes trovoadas, E de moscas e moscardos a chusma irada!

As moscas: o violino solista sustenta notas longas: é o zumbido.
Os trovões: a orquestra inteira entra em forte, em notas rápidas e repetidas.
No movimento lento, o cansaço não encontra descanso. Os violinos sustentam um zumbido longo e insistente, o enxame de moscas, e de tempos em tempos a orquestra inteira explode em trovões, cada vez mais perto.
III. Presto
Ai, que os medos dele eram certeiros: Ribomba e lampeja o céu, grandioso, E decapita espigas e grãos altivos.

Os raios: os violinos tocam escalas rápidas que passam de um naipe ao outro.
O granizo: a viola toca notas tremuladas sem parar.
O medo se confirma. A tempestade cai com toda a força num tutti furioso, cheio de escalas e de notas tremuladas, e não sobra nada de pé na plantação.
O Outono: a festa da colheita, o bêbado e a caçada
I. Allegro
Celebra o aldeão, com dança e canto, O belo agrado da gorda colheita; Acesos pelo báquico licor, no sono Findam muitos seus folguedos.

A festa: a orquestra toca o tema de dança da colheita.
O bêbado: o violino solista tropeça em escalas e arpejos que perdem o equilíbrio (L’Ubriaco).
O Outono abre com um tema de dança festivo: os camponeses comemoram a colheita. O vinho corre, e o violino solista vira o bêbado da aldeia, tropeçando em escalas e arpejos que perdem o equilíbrio e recomeçam. Aos poucos a melodia fica lenta, a festa se encerra e o bêbado adormece.
II. Adagio molto
O ar que, ameno, é um gosto Faz folgar, dançar, cantar a todos, E a estação convida meio mundo A se entregar ao mais suave sono.

O sono: as cordas tocam com surdina, um som abafado e distante (Ubriachi dormienti).
O torpor do vinho: o cravo desfia acordes em arpejo, cheios de dissonâncias (Il cembalo arpeggio).
O movimento lento inteiro é o sono de todos. As cordas tocam com surdina, um som abafado e distante, e o cravo desfia acordes em arpejo, numa harmonia cheia de dissonâncias, como um sono pesado depois de muito vinho.
III. Allegro
Os caçadores, tão pronto rompe o dia, Caçam com clarins, carabinas e cães. A presa em fuga sai, e no rastro eles lhe vão; Esmorecida e lassa do rumor grão De cães e tiros, fugir tenta, ferida E lânguida, mas morre encurralada.

As trompas de caça: as cordas imitam as chamadas das trompas (La caccia).
De manhã cedo, saem os caçadores, e as cordas imitam as chamadas das trompas de caça. A presa foge: o violino solista corre, enquanto a orquestra imita os tiros das espingardas e os latidos dos cães. No fim, o violino é atingido, esmorece e morre numa última frase de dor.
O Inverno: dentes batendo, chuva lá fora e o gelo que racha
I. Allegro non molto
Tremer enregelado no negro frio, Ao severo sopro de hórridos ventos; Correr batendo os pés de hora em hora, E bater os dentes pela geada muita.

O tremor: o violino solista toca trinados.
O frio: as dissonâncias e o staccato criam uma textura fria e áspera.
O Inverno tem o soneto mais detalhado, e a música segue cada passo. O concerto começa com dissonâncias e trinados que se empilham devagar: é o corpo tremendo de frio. Sopra um vento horrível nas escalas rápidas do violino solista. A orquestra fica percussiva, como alguém que corre batendo os pés no chão para se aquecer, e o solista bate os dentes em notas rápidas e repetidas.
II. Largo
Ficar ao pé do fogo, calmo e contente, Enquanto a chuva fora banha tantos.

O fogo: o violino solista toca uma melodia acolhedora.
A chuva: os violinos tocam em pizzicato, como gotas lá fora.
A cena muda para dentro de casa. O violino solista canta uma melodia acolhedora, de quem está junto ao fogo, enquanto os outros violinos beliscam as cordas com a ponta dos dedos, em pizzicato: são as gotas da chuva lá fora.
III. Allegro
Caminhar no gelo, a passo lento, E por medo de cair ficar atento; Girar súbito, escorregar e tombar, Depois se levantar e correr rápido Antes que o gelo rache e rompa; Sentir passar pelas portas trancadas O sopro boreal, os ventos em guerra: Eis o inverno, mas tal que júbilo traz.

Os passos no gelo: o violino solista avança com cuidado, em notas que escorregam.
O chão congelado: o baixo sustenta uma nota longa e contínua (arcate lunghe).
O último movimento leva todo mundo para o gelo. Uma nota contínua no grave é o chão congelado, e por cima os violinos avançam escorregadios e cuidadosos, a passo lento. De repente alguém escorrega e cai, numa escala rápida que despenca. Levanta-se e volta a correr, com o violino deslizando sobre o gelo, até que a orquestra, com gestos bruscos, faz o gelo se romper. Vem então uma passagem lenta e doce: é o vento que entra pelas frestas da porta. E, por fim, todos os ventos entram em guerra, em escalas e tremolos da orquestra inteira. Vivaldi fecha o ciclo com o verso que dá a última palavra às Quatro Estações.
Sugestões de Escuta
As faixas que acompanham cada movimento ao longo deste post são da gravação do Il Giardino Armonico, conjunto italiano de instrumentos de época dirigido por Giovanni Antonini, com o violinista Enrico Onofri, lançada em 1994. Abaixo, o álbum completo em vídeo, com o mesmo conjunto.
Referências Bibliográficas
EVERETT, Paul. Vivaldi: The Four Seasons and Other Concertos, Op. 8. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
TALBOT, Michael. The Vivaldi Compendium. Woodbridge: Boydell Press, 2011.
VIVALDI, Antonio. Le quattro stagioni, Op. 8/1–4. Ed. Simon Launchbury. London: Ernst Eulenburg, 1982.
Tradução dos sonetos: Théo Amon.



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