Jesus, Alegria dos Homens: a música mais famosa de Bach é mesmo dele?
- Bach Society Brasil
- 19 de jun.
- 7 min de leitura
Atualizado: 22 de jun.

Poucas melodias são tão reconhecíveis quanto "Jesus, Alegria dos Homens". Ela toca em casamentos, em trilhas de filme e até em toques de celular. No entanto, carrega um pequeno paradoxo: a música mais famosa de Johann Sebastian Bach talvez seja a menos "dele" de todas.
A melodia do hino não é de Bach; a letra não é de Bach; o título pelo qual ficou famosa tampouco. E, no entanto, há nela algo profundamente bachiano. Neste post vamos desmontar esse pequeno quebra-cabeça de autoria e seguir a obra desde sua origem, na cantata Herz und Mund und Tat und Leben, BWV 147, até as novas versões e adaptações que ganhou desde o barroco até os nossos tempos.
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Um quebra-cabeça de autoria
O tema musical que conhecemos como "Jesus, Alegria dos Homens" é o último movimento de uma cantata sacra, o coral Jesus bleibet meine Freude ("Jesus continua sendo a minha alegria"). Na prática cotidiana de Bach, estes corais eram muitas vezes harmonizações de hinos luteranos compostos por outras pessoas. A linha deste hino específico não foi composta por Bach: ela é de Johann Schop, violinista e compositor de Hamburgo, que escreveu a melodia Werde munter, mein Gemüte em 1642. A letra, por sua vez, vem do hino Jesu, meiner Seelen Wonne, do poeta Martin Janus (1661). O que Bach fez foi harmonizar e orquestrar esse coral luterano já conhecido — e, sobretudo, escrever em torno dele a corrente contínua de tercinas (grupos de três notas em fluxo contínuo) que a orquestra toca por baixo da melodia.
E é justamente aí que mora o paradoxo. O que cantarolamos como "a melodia" de "Jesus, Alegria dos Homens" na verdade não é o hino de Schop, e sim esse contracanto que serpenteia em tercinas — e esse, sim, é de Bach. Na estética barroca, não se trata de "melodia principal" e "acompanhamento": são duas camadas igualmente importantes convivendo ao mesmo tempo, tecidas pela arte da polifonia.
A ideia de autoria individual — a obra inteiramente original, saída de uma única mente — é uma noção moderna, herdada sobretudo do século XIX. No início do século XVIII, tomar um coral luterano conhecido de toda a congregação e revesti-lo de um novo contraponto não era "plágio" nem "obra alheia": era o próprio ofício do músico de igreja.

Uma cantata interrompida em Weimar
O famoso coral é um dos movimentos de uma obra maior, uma cantata sacra que tem origem dupla. Sua primeira versão, catalogada como BWV 147a, nasceu em Weimar, por volta de 1716, sobre um texto do poeta da corte Salomo Franck — secretário do consistório ducal e principal colaborador literário de Bach naquele período — e destinava-se ao quarto domingo do Advento.
As circunstâncias da composição são curiosas. Quando o velho capellmeister Johann Samuel Drese morreu, em 1º de dezembro de 1716, Bach assumiu as responsabilidades musicais da corte e escreveu cantatas para três domingos consecutivos do Advento (BWV 70a, 186a e 147a), bem além de sua obrigação contratual de uma cantata por mês. O autógrafo da terceira delas, a 147a, interrompe-se inacabado. Por quê? As fontes não nos dizem: pode ter sido doença, um atrito sobre a liderança da capela ou o jovem Drese, filho do falecido, fazendo valer sua posição. Não se sabe. A obra só seria retomada e concluída anos depois, em Leipzig.

Recomeço em Leipzig: a Visitação de 1723
Em 1723, Bach assumiu o posto de kantor (diretor musical) da Igreja de São Tomás, em Leipzig. Ele logo recuperou a música da cantata original de Weimar e ampliou-a, acrescentando três recitativos novos e os dois movimentos corais que carregam a melodia famosa. Apresentou a versão definitiva em 2 de julho de 1723, na Festa da Visitação de Maria, que celebra o episódio em que Maria visita a prima Isabel e entoa o Magnificat.
Convém lembrar o que era, então, uma cantata sacra. O gênero que Bach pratica aqui tinha origem recente: por volta de 1700, o poeta Erdmann Neumeister importou para a igreja luterana a forma da cantata secular italiana, com seus recitativos e árias herdados da ópera. O resultado é uma forma mista que Bach levaria ao auge: versículo bíblico, poesia livre (recitativo e ária) e coral. A cantata Herz und Mund und Tat und Leben tem exatamente essa amplitude: dez movimentos divididos em duas partes (uma antes, outra depois do sermão, que durava cerca de uma hora), com um coro de abertura brilhante coroado pelo trompete natural.
Curiosamente, a obra que o mundo conhece como "a cantata 147" foi, na verdade, a 32ª cantata que Bach compôs e que sobreviveu até os dias de hoje: o número BWV (do catálogo Bach-Werke-Verzeichnis) organiza as obras por gênero e agrupamento, não por data. E há algo a mais nesse verão de 1723: o musicólogo Peter Williams observa que foi justamente nas primeiras semanas de Bach em Leipzig que seu senso melódico "desabrochou" — a BWV 147 e o Magnificat, ambos ligados à Visitação, trazem melodias mais encantadoras, árias mais curtas e coros mais ricos do que o habitual. A melodia que conquistaria o mundo nasceu nesse surto de lirismo.

Coração, boca, ato e vida
O título da cantata — Herz und Mund und Tat und Leben, "Coração e boca, ato e vida" — já anuncia seu tema: confessar a fé com tudo o que se é. E, ao fim de cada uma das duas partes, retorna sempre o mesmo coral, com a mesma música e estrofes diferentes do hino de Martin Janus. No fim da primeira parte, o movimento 6:
Wohl mir, daß ich Jesum habe, o wie feste halt' ich ihn, daß er mir mein Herze labe, wenn ich krank und traurig bin.
Feliz de mim, que tenho Jesus, / oh, como firme eu o seguro, / para que ele console o meu coração / quando estou doente e triste.
E, no fecho da segunda parte, o movimento 10 — o trecho mundialmente célebre:
Jesus bleibet meine Freude, meines Herzens Trost und Saft, Jesus wehret allem Leide, er ist meines Lebens Kraft, meiner Augen Lust und Sonne, meiner Seele Schatz und Wonne.
Jesus continua sendo a minha alegria, / consolo e seiva do meu coração; / Jesus afasta todo sofrimento, / é a força da minha vida, / o deleite e o sol dos meus olhos, / o tesouro e a delícia da minha alma.
Repare na distância entre o que a letra diz e o nome pelo qual conhecemos a peça. O alemão fala de Jesus como alegria, consolo, força da vida, "sol dos olhos". O título inglês que tornou a música famosa no mundo, "Jesu, Joy of Man's Desiring", é uma paráfrase livre do poeta laureado Robert Bridges, já no século XX, não uma tradução. E mesmo o nosso "Jesus, Alegria dos Homens" é uma convenção consagrada, não uma versão literal. Mais uma camada de distância entre a fama e a origem.
Como "Jesus, Alegria dos Homens" conquistou o mundo
Se hoje a melodia está em toda parte, isso se deve em boa medida a uma pianista. Em 1926, a inglesa Myra Hess publicou uma transcrição para piano solo (e, em 1934, a quatro mãos) que se tornou sua peça-assinatura e levou o coral para fora da igreja. Curiosamente, a aura lenta e reverente que associamos à peça — a música de casamento solene — é uma construção do século XX: o hino alemão original era vivo, um canto de louvor. Abaixo, uma das gravações mais célebres desse arranjo, pela prórpia Myra.
▶ O arranjo de Myra Hess tocada pela própria autora — assista no YouTube
Daí em diante, a melodia ganhou o mundo em versões de todo tipo:
Apollo 100 — "Joy" (1972): versão instrumental acelerada que chegou ao 6º lugar da Billboard Hot 100 nos EUA e reapareceu com força no filme Boogie Nights.
George Winston — "Joy" (do álbum December, 1982): uma versão para piano solo de enorme alcance.
Wendy Carlos, no álbum pioneiro Switched-On Bach (1968): a peça recriada no sintetizador Moog.
Aparições em cinema e TV — de Downton Abbey a Brooklyn Nine-Nine —, além de incontáveis arranjos para coro, órgão, violão e até os Muppets.
Sugestões de Escuta
Vale ouvir o coral de volta ao seu contexto. Abaixo, o primeiro coral da cantata pela Bach Society Brasil, com o Ensemble Bach Brasil em instrumentos de época, sob direção de Fernando Cordella; e, em seguida, a cantata BWV 147 inteira pela Netherlands Bach Society, para que se perceba como o trecho famoso é apenas o desfecho sereno de uma obra muito maior.
Referências Bibliográficas
BOYD, Malcolm (ed.). Oxford Composer Companions: J. S. Bach. Oxford: Oxford University Press, 1999.
DAVID, Hans T.; MENDEL, Arthur; WOLFF, Christoph (eds.). The New Bach Reader: A Life of Johann Sebastian Bach in Letters and Documents. New York: W. W. Norton, 1998.
GARDINER, John Eliot. Bach: Music in the Castle of Heaven. New York: Alfred A. Knopf, 2013.
WILLIAMS, Peter. J. S. Bach: A Life in Music. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.
WOLFF, Christoph. Johann Sebastian Bach: The Learned Musician. New York: W. W. Norton, 2000.



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