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Os últimos dias de Johann Sebastian Bach: as cirurgias de catarata e a música no leito de morte


imagem de AI com Bach em uma cama

Em 28 de julho de 1750, por volta das oito e quinze da noite, Johann Sebastian Bach morreu em Leipzig, no sexagésimo sexto ano de vida, depois de meio ano acamado e quase cego.


A causa imediata foi um derrame seguido de febre alta; causadas, no entanto, por duas cirurgias oculares malsucedidas e o tratamento brutal que veio depois delas. Foi um fim sóbrio cercado de histórias envolvendo a interrupção na composição da Arte da Fuga e um suposto coral ditado no leito de morte.



A vista que se apagava

O olho de Bach já era frágil de nascença, e décadas de trabalho o desgastaram. O próprio Obituário redigido por seus filhos resume o processo: a vista naturalmente um tanto fraca, ainda mais enfraquecida por seu zelo inaudito no estudo, que o levava, sobretudo na juventude, a passar noites inteiras sentado ao trabalho, levou, em seus últimos anos, a uma doença ocular. Copiar partituras à luz de vela, ano após ano, cobrava seu preço.


Nos últimos meses de 1749, o declínio físico já transparecia até na caligrafia. Ao preparar as partes instrumentais de um moteto do tio-avô Johann Christoph Bach para uso próprio, Bach escreveu com letra desajeitada, rígida e irregular, limitando-se ao mínimo indispensável — sinais, observa Christoph Wolff, de que o velho mestre já tinha dificuldade para enxergar e escrever. A essa altura, o que o consumia não era a idade avançada por si só: aos 65 anos, o resto de seu organismo, dizem as fontes, permanecia inteiramente saudável.



O Chevalier Taylor chega a Leipzig

Em março de 1750, chegou a Leipzig o oftalmologista inglês itinerante John Taylor, autoproclamado Chevalier, para dar conferências e demonstrar publicamente sua técnica cirúrgica. Bach, decidido a recuperar a visão, ofereceu-se como paciente. A primeira operação ocorreu entre a chegada de Taylor, em 28 de março, e 1º de abril — data em que o jornal Berlinische Privilegirte Zeitung anunciava, em tom de propaganda, que o Capellmeister Bach recuperou toda a nitidez de sua visão, uma ventura indizível pela qual milhares de pessoas só teriam a agradecer ao Dr. Taylor.


Aqui o registro histórico desmente o mito popular. Taylor é frequentemente pintado como um charlatão que cegou tanto Bach quanto Händel; mas Wolff é cuidadoso: tratava-se de um especialista em catarata respeitado e de modo algum um charlatão médico. O problema não foi tanto o golpe de bisturi quanto o que veio depois. A primeira operação fracassou, e entre 5 e 8 de abril Bach passou por uma segunda cirurgia, agravada por medicamentos nocivos e outras coisas — provavelmente sangrias e a fricção do olho. Em maio de 1750, a própria Faculdade de Medicina de Leipzig emitiu um boletim com críticas ao resultado.


O próprio relato de Taylor, publicado em 1761, denuncia sua falta de rigor: ele afirma ter operado um célebre mestre de música que já alcançara seu octogésimo oitavo ano — Bach tinha 66 — e o confunde com o professor de Händel. Quem se gabava da cura era, no fim, uma testemunha pouco confiável de si mesma.


Gravura em preto e branco de John Taylor, oftalmologista do século XVIII.
O oftalmologista inglês John Taylor (1703-1772), autointitulado Chevalier, em gravura do século XVIII.


Meio ano de declínio e a morte de Bach

Depois da segunda operação, segundo o Obituário, todo o seu organismo, que de outro modo era inteiramente saudável, foi completamente arruinado. Bach ficou quase continuamente doente e provavelmente cego do início de abril a meados de julho. Ainda assim, não se rendeu: em 4 de maio aceitou como aluno interno o jovem Johann Gottfried Müthel, gesto que revela esperança de melhora e, talvez, o consolo de seguir trabalhando.


Conta o Obituário que, dez dias antes da morte, a visão de Bach pareceu subitamente melhorar: numa manhã ele voltou a enxergar bem e a suportar a luz. Poucas horas depois, sofreu um derrame — Wolff data o episódio em 20 de julho —, ao qual se seguiu uma febre violenta. Dois dias após o derrame, o arquidiácono Christoph Wolle, de São Tomás, administrou-lhe a comunhão no leito.


Bach morreu em 28 de julho de 1750, terça-feira, pouco depois das 20h15. O enterro ocorreu três dias depois. Todo o corpo docente encabeçou o cortejo fúnebre pelo Portão de Grimma; o carro fúnebre foi cedido gratuitamente. O corpo foi sepultado no cemitério da igreja de São João (Johannisfriedhof). Só em 1950 seus restos foram transladados para a Thomaskirche, onde repousam hoje.


Fotografia colorida do interior da Thomaskirche de Leipzig mostrando a lápide de bronze de Johann Sebastian Bach.
Túmulo de Johann Sebastian Bach diante do altar do coro da Thomaskirche, em Leipzig.


A obra inacabada e o coral do fim

Bach deixou inacabada A Arte da Fuga (Die Kunst der Fuge, BWV 1080), seu testamento de contraponto.


Fac-símile de página manuscrita barroca em papel envelhecido, sistemas de pauta preenchidos, final incompleto.
Última página do autógrafo do Contrapunctus 14, BWV 1080. A música se interrompe na entrada do motivo B-A-C-H.

A fuga final interrompe-se quando entra o terceiro tema, que soletra, em notas, o nome B-A-C-H. Numa nota sobre o autógrafo, Carl Philipp Emanuel Bach registrou: o autor faleceu enquanto trabalhava nesta fuga. A imagem é irresistível: o compositor expirando com a pena na mão, no exato instante em que assina a própria música.



Quatro notas sobre pauta: si bemol, lá, dó, si natural.
O motivo B-A-C-H em notação musical: si bemol–lá–dó–si natural.

A musicologia, porém, complica a cena. O autógrafo está escrito com a própria letra de Bach e data de 1748-49, antes da cegueira — ou seja, a fuga não foi literalmente interrompida no leito de morte. Igualmente célebre é o coral do leito de morte: a primeira edição de A Arte da Fuga trazia, ao fim, um coral a quatro vozes que o falecido teria ditado de improviso, em sua cegueira, à pena de um amigo.


Não pode ter sido bem assim. Wolff demonstra que o coral já existia: Bach compusera Wenn wir in höchsten Nöten sein (BWV 641) em Weimar, para o Orgel-Büchlein, e depois o expandira (BWV 668). Nos últimos dias, Bach pediu a um amigo organista que tocasse a peça, percebeu que sua melodia servia ao hino Vor deinen Thron tret ich hiermit, ditou ajustes de contraponto e mandou trocar o título. Não foi criação espontânea, mas um último gesto de revisão — a mesma busca de perfeição que o moveu a vida inteira, agora diante da própria morte.





A Animação: Episódio #28 – Episódio Final da Série

O episódio final da série Bach: The Animated Series encerra a narrativa biográfica, dramatizando os capítulos derradeiros da vida de Bach — a doença dos olhos, as cirurgias, a cegueira.

Este episódio integra a série independente criada e animada pelo artista Peter Fielding. Nascido em Flandres e radicado na Itália, Fielding explorou a biografia de Johann Sebastian Bach através de uma narrativa visual que humaniza os desafios do compositor.

A Bach Society Brasil apresenta os vídeos da série como parte de sua iniciativa de divulgação. Para compreender os bastidores da produção e o processo criativo do autor, leia nossa entrevista exclusiva com Peter Fielding.


Real ou Ficção?

A animação acerta no essencial. O Obituário de 1754 — escrito por Carl Philipp Emanuel Bach e Johann Friedrich Agricola — confirma os pilares: a doença ocular, as duas cirurgias fracassadas de Taylor, a cegueira, o derrame e a morte em 28 de julho de 1750.


Há, contudo, três pontos que merecem cuidado. Primeiro: a imagem de Taylor como charlatão que cegou Bach é simplista — era um cirurgião respeitado; o dano veio do tratamento pós-operatório agressivo. Segundo: o Bach cego ditando o coral no leito de morte é lenda — a peça preexistia, e o que houve foi revisão; a ideia de que A Arte da Fuga se interrompe no instante em que Bach escreve seu nome é desmentida pela datação do manuscrito. Terceiro: diagnósticos retrospectivos da causa da morte são especulação.


O que sobra, depois de afastado o verniz romântico, não é menos comovente: um homem de trabalho que enfrentou a cegueira com a mesma obstinação com que enfrentou tudo — aceitando alunos, revisando uma última peça, preparando-se com método para o fim.





Escuta Sugerida

Bach trabalhou na Missa em Si menor ao longo de sua última década de vida, reunindo-a como síntese de toda a sua produção vocal sacra — muitos a descrevem como um testamento musical. O Christe eleison, dueto de sopranos sobre a súplica mais elementar da liturgia, é o momento mais íntimo dessa missa monumental: um sussurro de duas vozes diante do mistério. Ouvi-lo é entrar na obra que Bach polia enquanto a vista se apagava.

Christe eleison, dueto de sopranos da Missa em Si menor, BWV 232 — Concerto de Abertura da Temporada 2023 da Bach Society Brasil.

Nos anos finais, Bach adaptou o Stabat Mater de Giovanni Battista Pergolesi — morto aos 26 anos —, vertendo-o para o alemão como paráfrase do Salmo 51. Wolff lê esse gesto como uma rara abertura tardia à estética galante italiana. É uma obra sobre dor, penitência e morte — o tipo de texto que o compositor escolheu trabalhar ao fim da vida.

Moteto Tilge, Höchster, meine Sünden, BWV 1083 — adaptação de Bach sobre o Stabat Mater de Pergolesi. Bach Society Brasil.




Referências Bibliográficas

BACH-ARCHIV LEIPZIG. Calendarium: A Timeline of the Life of Johann Sebastian Bach.

DAVID, Hans T.; MENDEL, Arthur; WOLFF, Christoph (Ed.). The New Bach Reader. New York: W. W. Norton & Company, 1998.

FORKEL, Johann Nikolaus. Über Johann Sebastian Bachs Leben, Kunst und Kunstwerke. Leipzig: Hoffmeister & Kühnel, 1802.

GARDINER, John Eliot. Bach: Music in the Castle of Heaven. New York: Alfred A. Knopf, 2013.

WILLIAMS, Peter. J. S. Bach: A Life in Music. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

WOLFF, Christoph. Johann Sebastian Bach: The Learned Musician. New York: W. W. Norton & Company, 2000.


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