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O mito da Chacona: o luto de Bach pela morte da esposa Maria Barbara

Violino sobre partitura Ciaccona, com velas acesas, pena, busto e óculos em mesa, em clima quente e clássico.


Em julho de 1720, Johann Sebastian Bach desceu de uma carruagem em Köthen depois de quase dois meses fora a serviço do Príncipe Leopold e foi informado de que sua esposa havia morrido e já estava inclusive enterrada.

Ninguém havia lhe avisado sobre a doença; ninguém esperava pelo enterro. Aos 35 anos, Bach tornou-se viúvo, pai de quatro filhos pequenos. Este acontecimento deu origem a uma das maiores especulações sobre sua obra, envolvendo a famosa Chacona para violino.





Maria Barbara: a prima que se tornou esposa

Maria Barbara Bach nasceu em 20 de outubro de 1684 em Gehren, na Turíngia, filha de Johann Michael Bach — organista, compositor de motetos e construtor de instrumentos — e de Catharina Wedemann. Era prima em primeiro grau de Johann Sebastian: o pai dela, Johann Michael, era irmão de Johann Ambrosius, pai do compositor.


A genealogia bachiana, que Sebastian organizaria décadas depois no Ursprung der musicalisch-Bachischen Familie, encontrava em Maria Barbara mais um nó dessa rede de músicos hereditários. Como observa Christoph Wolff, casar com uma Bach era uma decisão dentro da tradição: prolongar a linhagem profissional que vinha sustentando a família desde o século XVI.


Os dois se conheceram em Arnstadt, onde Sebastian havia assumido o posto de organista da Bonifaciuskirche em 1703. Casaram-se em 17 de outubro de 1707 em Dornheim, pouco depois de Sebastian ter assumido o cargo em Mühlhausen. Em treze anos de casamento, tiveram sete filhos. Sobreviveram quatro. Os gêmeos Maria Sophia e Johann Christoph viveram poucas semanas em 1713, e o pequeno Leopold Augustus — o filho mais novo, batizado em homenagem ao príncipe — morreu em 1719 com menos de um ano de idade. Em julho de 1720, Maria Barbara enterrara dois filhos em sete anos.


A família havia se mudado para Köthen no fim de 1717, quando Sebastian assumiu o cargo de Kapellmeister da pequena corte calvinista do Príncipe Leopold de Anhalt-Köthen. Foi o período mais estável da vida adulta de Bach: salário alto, ambiente musical refinado, ausência das exigências litúrgicas que o consumiriam mais tarde em Leipzig. Maria Barbara administrava a casa de funcionário graduado de uma corte que tratava o marido como um igual.




A viagem a Carlsbad: o Kapellmeister em serviço

Em maio de 1720, o Príncipe Leopold partiu para Carlsbad — a célebre estância termal da Boêmia, hoje Karlovy Vary, na República Tcheca — para uma temporada de banhos. Era prática comum entre a alta nobreza alemã: passar semanas em cidades de águas medicinais com séquito completo, médico, criados e músicos. Bach acompanhou o príncipe como Kapellmeister, levando consigo parte da Kapelle da corte para entreter o patrão durante a estadia. O grupo levava instrumentos próprios; cravos eram contratados in loco quando necessários.


A comitiva ficou fora de Köthen por aproximadamente dois meses. Para Maria Barbara, era a segunda longa ausência do marido a serviço do mesmo príncipe; em 1718, ela já havia administrado a casa sem Sebastian pela mesma razão. Nenhum documento sugere que tenha adoecido antes da partida. As correspondências da época não mencionam qualquer recado urgente enviado a Carlsbad pedindo o retorno do Kapellmeister — o que, pela velocidade das comunicações da época e pela distância (cerca de 250 km entre Carlsbad e Köthen), provavelmente teria chegado tarde demais.


Gravura do Principe Leopold de Anhalt-Kothen, aristocrata do inicio do seculo XVIII.
Retrato do Principe Leopold de Anhalt-Kothen (1694-1728), patrono de Bach entre 1717 e 1723. (Fonte: Wikimedia Commons / Dominio Publico.)


O sepultamento que aconteceu sem Bach

O Bach-Archiv Leipzig conserva o registro paroquial: Maria Barbara Bach foi sepultada em 7 de julho de 1720 na Jakobskirche de Köthen — a igreja luterana que, num principado de governo reformado, atendia à maior parte da população. A data exata da morte não está documentada; os registros paroquiais luteranos da época anotavam o enterro, não o falecimento. Wolff (p. 196) aponta o intervalo provável entre 30 de junho e 5 de julho. A causa permanece desconhecida — convenção historiográfica que vale repetir, porque a literatura sobre Bach está cheia de diagnósticos retrospectivos sem base documental.


O assento do óbito é seco e administrativo. A entrada de 7 de julho registra apenas: “A esposa do Senhor Johann Sebastian Bach, Capellmeister de Sua Alteza o Príncipe, foi sepultada”, com a nota de que o coro pleno da escola latina cantou no funeral — em vez do coro parcial habitual — e que a escola reduziu a taxa de aluguel costumeira. (Wolff, pp. 198–199.) Pequenos gestos de respeito por uma musicista de família reconhecida.


Quem assinou os preparativos não foi Sebastian. Foi muito provavelmente a cunhada Friedelena, irmã mais velha de Maria Barbara que vivia com a família em Köthen havia mais de uma década, ou ainda Catharina Dorothea, a filha mais velha — com doze anos, idade que a tradição luterana da época reconhecia como suficiente para acompanhar gestões domésticas. Os quatro filhos sobreviventes — Catharina, Wilhelm Friedemann (10 anos), Carl Philipp Emanuel (6) e Johann Gottfried Bernhard (5) — ficaram sob cuidado da casa enquanto o pai cumpria os últimos dias da temporada em Carlsbad.


Fotografia colorida da Jakobskirche em Kothen, fachada gotica com duas torres.
Igreja luterana de Sao Jaco (Jakobskirche) em Kothen, onde Maria Barbara Bach foi sepultada em 7 de julho de 1720. (Fonte: Wikimedia Commons / Dominio Publico.)

Especulações sobre a Chacona e o luto de Bach

Em 1720, no mesmo ano em que Maria Barbara morreu, Bach assinou o autógrafo manuscrito das Sei Solo a Violino senza Basso accompagnato (BWV 1001–1006), o conjunto de três Sonatas e três Partitas para violino solo que é uma das obras-cume do barroco. A Partita No. 2 em Ré menor culmina numa Chacona de 257 compassos sobre baixo de quatro compassos — peça de tal ambição formal que, desde Brahms, recebe transcrições para piano, violoncelo, orquestra e cravo, incluindo a versão para cravo solo de Fernando Cordella gravada pela Bach Society Brasil.


Fac-simile do autografo de Bach da Chacona BWV 1004.
Pagina de abertura da Chacona da Partita No. 2, BWV 1004, no autografo de Bach de 1720. Staatsbibliothek zu Berlin. (Fonte: Wikimedia Commons / Dominio Publico.)

A coincidência cronológica entre o autógrafo de 1720 e a morte da esposa alimentou uma das hipóteses interpretativas mais populares das últimas décadas: a musicóloga alemã Helga Thoene defendeu, em estudos publicados a partir de 2001, que a Chacona seria um tombeau musical para Maria Barbara, com citações criptografadas de corais luteranos sobre morte e ressurreição. A tese teve grande repercussão pública — sobretudo após a gravação de Christoph Poppen sobreposta às melodias dos corais cantados pelo Hilliard Ensemble —, mas não obteve consenso musicológico. Christoph Wolff e Peter Williams a tratam com reserva: o argumento depende de cadeias numéricas e justaposições temáticas que, segundo os críticos, valem para quase qualquer obra densa de Bach. O autógrafo está datado de 1720, mas a obra pode ter sido composta ao longo de anos anteriores; e a tradição da chaconne barroca incluía tanto laments quanto danças triunfais.


Vale o registro pelo que ele revela do próprio leitor: o impulso de dar à perda invisível um monumento sonoro à altura. Bach não nos deixou nada explícito sobre Maria Barbara em sua obra. A Chacona pode ou não ser um epitáfio dela — mas é, com certeza, a obra desse período que mais convida ao luto de quem a ouve.



O Bach que voltou: o relato de Forkel

Quase um século depois, Johann Nikolaus Forkel — biógrafo e primeiro grande pesquisador da obra bachiana — recolheu de Wilhelm Friedemann e de Carl Philipp Emanuel a versão mais difundida do retorno. O relato é seco e devastador:


“Depois de treze anos de um casamento extremamente feliz, ele teve a dolorosa experiência, ao voltar de uma viagem, de não encontrar a esposa viva. Quando partira, ela estava com saúde; a notícia da morte só lhe chegou ao retornar a casa.” (Forkel, Über Johann Sebastian Bachs Leben, 1802 — The New Bach Reader, Doc. 306.)

O documento não revela detalhes sobre o estado emocional do compositor; o que sabemos vem por inferência indireta. Sebastian não interrompeu a vida profissional: nas semanas seguintes, retomou as obrigações da Kapelle, recebeu novos alunos e, em novembro de 1720, viajou a Hamburgo para uma audição na Jacobskirche que prestaria diante do quase centenário Johann Adam Reincken. Peter Williams, em J. S. Bach: A Life in Music, observa que esse período de Köthen — entre julho de 1720 e o casamento com Anna Magdalena Wilcke, em 3 de dezembro de 1721 — é o mais opaco da biografia bachiana. Quase não há cartas, e as poucas referências oficiais tratam apenas de assuntos administrativos.


Dezessete meses depois da morte de Maria Barbara, Bach se casou com Anna Magdalena Wilcke, soprano da corte de Köthen, vinte anos mais jovem que ele. O segundo casamento, comprovado nos registros paroquiais, daria mais treze filhos a Bach e duraria até sua morte em 1750. Wolff resiste a leituras psicologizantes: para um homem de quase quarenta anos com quatro filhos pequenos, casar de novo era uma necessidade prática, não uma traição do luto. Maria Barbara teve missas anuais de memória na corte luterana de Köthen pelo menos enquanto Bach viveu lá; o nome dela some das fontes a partir da mudança para Leipzig em 1723.





A Animação: Episódio #15 – Luto e Culpa

No vídeo, do canal Bach: The Animated Series, o episódio #15 – Luto e Culpa dramatiza a viagem com o príncipe Leopold a Carlsbad e o retorno de Bach a Köthen, encontrando a esposa já enterrada. A narrativa explora a sombra de culpa que acompanharia o compositor naquele verão de 1720.

Sobre a série Bach: The Animated Series

A série é um projeto independente de animação narrativa do diretor Peter Fielding, nascido em Flandres e radicado na Itália, que vem reconstruindo em curtas episódios os principais momentos da biografia de Johann Sebastian Bach. A Bach Society Brasil apresenta os vídeos em seu blog como parte de sua iniciativa de divulgação da música barroca, oferecendo às gerações mais jovens uma porta de entrada para o universo bachiano. Para conhecer mais sobre a obra de Fielding e os bastidores do projeto, leia nossa entrevista exclusiva com Peter Fielding.



Real ou Ficção?

A animação acerta no essencial. A documentação primária — o relato de Forkel apoiado em Wilhelm Friedemann e Carl Philipp Emanuel, e o registro paroquial conservado pelo Bach-Archiv — confirma três pontos centrais: a viagem com Leopold a Carlsbad em 1720, a ausência de Bach durante a doença e o enterro de Maria Barbara, e o choque do retorno. Estão corretos também o detalhe da morte do filho Leopold Augustus em 1719 (que o episódio coloca como peso emocional adicional) e a posição de Bach como Kapellmeister obrigado a servir o príncipe em viagem oficial.


A dramatização da culpa, porém, é leitura interpretativa, não documento. Forkel descreve a dor do retorno; nenhum testemunho contemporâneo atribui a Bach a culpa explícita pela ausência. A própria estrutura institucional da época torna a acusação anacrônica: um Kapellmeister da corte não decidia se acompanhava ou não o príncipe a Carlsbad — era parte do contrato. Bach soube da doença, se é que soube, tarde demais para retornar a tempo. A leitura romantizada do compositor torturado pelo arrependimento é construção do século XIX, retomada pelo formato emocional do episódio.


Outra ressalva: a animação concentra a tragédia no luto da esposa, mas oculta a continuidade institucional que veio depois. Bach não parou. Em novembro de 1720 viajou a Hamburgo para a audição na Jacobskirche; em dezembro de 1721 casou-se com Anna Magdalena. A vida funcional de um Kapellmeister de corte com quatro crianças não comportava paralisia. O luto que a fonte primária registra é privado, silencioso e administrado em paralelo com o trabalho — um luto barroco, não romântico.





Escuta Sugerida

A Chacona da Partita No. 2 sobrevive a quase todas as transcrições — Brahms a passou para piano apenas para a mão esquerda, e Busoni a expandiu numa monumental versão para piano a duas mãos. Fernando Cordella retoma esse percurso de leituras em sentido próprio: transcreve a peça para cravo solo numa solução idiomática inspirada na versão de Brahms, mas que devolve à obra o instrumento de teclado mais próximo do tempo de Bach. O efeito é peculiar — onde o violino barroco sustenta a linha melódica num único arco, o cravo expõe a polifonia subjacente: o ouvinte percebe que a Chacona é, por baixo da melodia, uma coluna de variações harmônicas que cabem no teclado como se sempre tivessem estado lá. O programa Bach Transcriptions foi o concerto inaugural da série Bach Brasil em 2020, gravado em instrumentos de época.

Chacona da Partita No. 2, BWV 1004, na transcrição para cravo solo de Fernando Cordella — Bach Transcriptions, Capela La Salle, Canoas/RS, 17 de setembro de 2020. Direção artística e cravo: Fernando Cordella.

A Chacona não está sozinha na Partita No. 2: ela é o quinto movimento de um ciclo de cinco que se abre com esta Allemande grave, atravessa Corrente, Sarabande e Giga, e desemboca na monumental Ciaccona. Ouvir a Allemande antes da Chacona é entrar no mesmo tom afetivo de ré menor — austero, denso, contemplativo — em escala mais íntima: a abertura prepara o terreno emocional que a Chacona elevará a monumento. Márcio Cecconello apresenta a peça em violino barroco — corda de tripa, arco mais leve, articulação que respira o fraseado original — no programa O Violino — Instrumentos de Bach, da Bach Society Brasil, dedicado a explorar o instrumento que Bach tinha em mente ao escrever as Sei Solo.

Allemande da Partita No. 2, BWV 1004, com Márcio Cecconello ao violino barroco. O Violino — Instrumentos de Bach, Salão Mourisco da Biblioteca Pública do Estado, Porto Alegre/RS, 22 de janeiro de 2022. Direção artística: Fernando Cordella.




Referências Bibliográficas

BACH-ARCHIV LEIPZIG. Calendarium: A Timeline of the Life of Johann Sebastian Bach.

DAVID, Hans T.; MENDEL, Arthur; WOLFF, Christoph (Ed.). The New Bach Reader: A Life of Johann Sebastian Bach in Letters and Documents. New York: W. W. Norton & Company, 1998.

FORKEL, Johann Nikolaus. Über Johann Sebastian Bachs Leben, Kunst und Kunstwerke. Leipzig: Hoffmeister & Kühnel, 1802.

GARDINER, John Eliot. Bach: Music in the Castle of Heaven. New York: Alfred A. Knopf, 2013.

WILLIAMS, Peter. J. S. Bach: A Life in Music. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

WOLFF, Christoph. Johann Sebastian Bach: The Learned Musician. New York: W. W. Norton & Company, 2000. (Cap. 8, pp. 195–199.)

THOENE, Helga. Johann Sebastian Bach — Ciaccona: Tanz oder Tombeau?. Oschersleben: Ziethen, 2001.


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