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O Livro de Anna Magdalena: a música que era tocada na família de Johann Sebastian Bach

há 22 horas
10 min de leitura
Página do Livro de Anna Magdalena Bach.

Em 1725, Anna Magdalena Bach abriu um caderno de capa verde com as próprias iniciais gravadas a ouro e passou os trinta e cinco anos seguintes enchendo-o de partituras. O que ele guardava forma um documento musical da família Bach com partituras e até piadas pouco comportadas.


No dia 21 de setembro de 2026, faremos um concerto gratuito em Porto Alegre dedicado ao Livro de Anna Magdalena, tocando o repertório que a família Bach tocava em casa. Confira os detalhes aqui.


A música na casa dos Bach

Uma vez por ano, os Bach espalhados pelas cidades da Turíngia se reuniam. Eram tantos, e tantos deles músicos profissionais, que o sobrenome virara quase sinônimo de ofício na região. O encontro começava sempre por um coral devoto e, segundo o relato que o primeiro biógrafo de Bach, Johann Nikolaus Forkel, recolheu com os filhos de Johann Sebastian, terminava em improvisos coletivos sobre canções populares de conteúdo em parte cômico, em parte indecente, entre gargalhadas que ninguém conseguia conter.

A casa de Leipzig funcionava no mesmo espírito, com a diferença de que ali era também local de trabalho. Carl Philipp Emanuel Bach descreveria a casa do pai como "um pombal, e igualmente cheia de vida": por ela passavam Zelenka, Quantz, os irmãos Graun, Hasse e a célebre soprano Faustina Bordoni, e não havia mestre de música que atravessasse a cidade sem travar conhecimento com o dono. Quando havia partitura a copiar sob pressão de prazo, quem copiava eram a esposa, os filhos, os sobrinhos e os alunos que moravam ali. Instrumento não faltava: o inventário do espólio de Bach, em 1750, listaria oito teclados, e os quatro cravos eram os quatro bens mais valiosos que ele deixou.

É nesse ambiente que o Livro de Anna Magdalena precisa ser lido. Não é uma obra de Bach nem uma coletânea organizada por editor. É o que hoje se chamaria de songbook da família: o caderno onde se anotava o que aquela casa de fato tocava e cantava, do minueto que uma criança estudava à ária que a dona da casa levava para o cravo depois do jantar.


Cravo barroco alemão de dois teclados, com caixa ricamente decorada em laca e pintura floral em fundo escuro, tampa levantada mostrando decoração interna, apoiado sobre pés torneados; instrumento representativo da música doméstica na casa de Bach.
Cravo de dois teclados de Christian Zell (Hamburgo, 1728). Instrumentos como este eram o centro da vida musical doméstica alemã, e o inventário de Bach, em 1750, listava oito teclados. (Fonte: Wikimedia Commons.)


Dois cadernos, e o segundo é dela

São dois cadernos, e a diferença entre eles é a chave de tudo. O primeiro, de 1722, foi provavelmente presente de primeiro aniversário de casamento: ela caligrafou a folha de rosto, mas quase toda a música lá dentro é do punho de Johann Sebastian. Sobrevive mutilado, com vinte e cinco das setenta e cinco páginas originais, e da mão dela restaram apenas dois minuetos.

O segundo, de 1725, é outro objeto. Setenta e cinco folhas de bordas douradas em couro verde, com moldura decorada e as iniciais "A M B" gravadas a ouro. Não tem folha de rosto: o monograma de três letras já basta como declaração de posse. Costuma-se dizer que Bach o encomendou e o presenteou, mas nada impede que tenha sido ela a encomendá-lo, ao marido ou ao próprio encadernador. Não há evidência para nenhuma das duas versões.

O que se sabe é quem escreveu. Pouco mais da metade das páginas está na mão dela; o resto se divide entre o marido, os enteados Carl Philipp Emanuel e Wilhelm Friedemann, os filhos Johann Christoph Friedrich e Johann Christian, o preceptor dos meninos e ao menos um copista anônimo. Foi um projeto a muitas mãos, mantido por vinte anos, e daí a formulação de David Yearsley:

“Se o primeiro caderno era ‘para’ ela, o segundo pode ser pensado como sendo ‘dela’, não como compositora, mas como a pessoa que curou o volume segundo seus gostos, deveres e desejos, e depois usou seu conteúdo de maneiras sempre novas de 1725 até sua morte, trinta e cinco anos mais tarde.” (David Yearsley, Sex, Death, and Minuets, p. xxiii)

São quarenta e dois números musicais: vinte danças avulsas, doze canções entre corais e árias, e o restante em peças de teclado maiores. Pelo menos duas dessas árias não são de Bach.


A encadernação do caderno de 1725: couro verde, bordas douradas e as iniciais A.M.B. gravadas a ouro. Sem folha de rosto, porque o monograma já dizia de quem era o livro.


Anna Magdalena: copista e arquivista

A partir de 1725, quando as apresentações públicas de Anna Magdalena rareiam, a colaboração dela muda de natureza e passa a ficar registrada de outro jeito: em manuscritos. Da mão dela saíram as cópias a limpo das seguintes obras:

  • Suítes para violoncelo, BWV 1007–1012

  • Sonatas e Partitas para violino solo, BWV 1001–1006

  • as seis Sonatas em trio para órgão, BWV 525–530

  • trechos extensos dos dois livros do Cravo bem-temperado

  • as partes do Kyrie e do Gloria da Missa em Si menor enviadas a Dresden em 1733

  • partes de cantatas, da Paixão segundo São Mateus e de um moteto

O primeiro item da lista merece parada, porque muda o tamanho do assunto: não existe autógrafo de Bach das Suítes para violoncelo. A fonte mais próxima do compositor, aquela de que dependem todas as edições e todos os violoncelistas do mundo, é a cópia feita por ela. Um ex-aluno da casa, Georg Heinrich Ludwig Schwanberg, chegou a registrar na folha de rosto de sua própria cópia das obras para violino que aquilo fora "Ecrite par Madame Bachen son Epouse", escrito pela senhora Bach, sua esposa. Ela imitava a notação do marido com tal domínio que musicólogos, ao longo de um século e meio de estudos de fontes bachianas, confundiram a letra dela com a dele. Da primeira esposa, Maria Barbara, não sobrou nada disso: nenhuma referência a execução, a assistência secretarial ou a qualquer atividade semiprofissional.

Havia ainda um terceiro tipo de trabalho, que a historiografia nunca contou como trabalho: ela arquivava. Entre os papéis da casa havia uma parte de baixo contínuo solta, sem identificação. Foi ela quem a rotulou, de próprio punho, como pertencente "zur groß Bassion", à grande Paixão, e ninguém precisou de mais explicação: era a Paixão segundo São Mateus. O gesto é pequeno e diz muito. Ela não copiava mecanicamente; conhecia o catálogo da casa por dentro, sabia a que obra pertencia cada folha avulsa, e a família confiava nesse julgamento. Numa oficina que produzia música toda semana contra o relógio, saber onde as coisas estão é competência, e essa era dela.

As duas últimas páginas do caderno de 1725 completam o retrato. Nelas, o filho Johann Christoph Friedrich copiou algumas regras sumárias de baixo contínuo; logo em seguida vêm regras mais completas, escritas pela mãe. O baixo contínuo era, no século XVIII, preparação para a composição e, portanto, terreno masculino. Naquele caderno, a versão completa é a dela.


As obras dentro do Livro de Anna Magdalena

Aqui está o dado que mais surpreende quem cresceu tocando este caderno: as peças mais famosas do "Bach para iniciantes" não são de Bach.

Os dois Minuetos em Sol maior e Sol menor, BWV Anh. 114 e 115, o primeiro deles provavelmente a peça de teclado mais tocada do planeta, são de Christian Petzold, organista da Sophienkirche de Dresden. Só se soube disso nos anos 1970, quando apareceu uma suíte de cravo dele contendo o par, e a edição de 1990 do catálogo BWV mudou as duas peças para o anexo das obras alheias. Bach tocara um recital no órgão Silbermann da igreja de Petzold justamente em 1725, o ano em que o caderno começou; é provável que tenha trazido as peças de Dresden na bagagem. Foi Anna Magdalena quem as copiou.

Página do Livro de Anna Magdalena Bach.

O resto do caderno segue a mesma lógica de cidade grande. O Rondó em Si bemol maior, BWV Anh. 183, é "Les bergeries", de François Couperin. A Marcha em Ré maior, BWV Anh. 122, e as peças que a acompanham no catálogo são de Carl Philipp Emanuel, copiadas do próprio punho dele quando era um menino de onze a catorze anos. A Polonaise em Sol maior é provavelmente de Johann Adolph Hasse, capellmeister de Dresden e amigo da casa. Há um minueto de Georg Böhm, copiado por Bach, cartão de visitas do velho organista que fora seu professor um quarto de século antes. E, entre as últimas entradas, uma peça do caçula Johann Christian, aos dez anos.

Página do Livro de Anna Magdalena Bach.


No meio dessas dancinhas, sem título e sem alarde, estão duas das páginas mais conhecidas da história do teclado. Uma é o Prelúdio em Dó maior, BWV 846, o que abre o Cravo bem-temperado, aqui numa versão abreviada. A outra é uma Ária em Sol maior, a mesma que em 1741 se tornaria o tema das Variações Goldberg. A cópia da Ária é dela, e traz um detalhe revelador: reescreveu a mão direita em clave de soprano, a clave que uma cantora lê sem pensar. Naquele caderno, essas duas páginas não são pórtico de monumento nenhum. São música de sala, e a Ária parece ter sido uma das peças preferidas da dona do livro.

O Livro de Anna Magdalena, portanto, não é uma antologia de Bach. É o repertório que aquela casa efetivamente tocava, e aquela casa tocava a Europa inteira, em francês, em italiano e em polonês. Um álbum de recordações tanto quanto um livro de estudo, com relíquias da família, instantâneos dos filhos aprendendo a compor e lembranças de amigos distantes.

Retrato do início do século XVIII de um homem de peruca longa e encaracolada, casaca de gola larga e expressão serena, voltado ligeiramente de lado; representa o compositor e cravista francês François Couperin.
François Couperin (1668–1733) em retrato de época. "Les bergeries", do sexto Ordre de suas Pièces de clavecin, entrou no caderno de Anna Magdalena como um rondó anônimo. (Fonte: Wikimedia Commons.)

Da dança à hora da morte

A certa altura o caderno vira. Depois de uma sequência de danças fáceis, sem nenhuma transição, entra "Bist du bei mir", e dali em diante o volume é outra coisa. Das doze melodias com texto, oito falam da morte, e em quatro delas morrer é o assunto central: a canção pede a quem canta que imagine os próprios últimos momentos.

A imagem que atravessa todas é a da morte como sono. Em "Bist du bei mir", que também não é de Bach, e sim de Gottfried Heinrich Stölzel, tirada de uma ópera de 1718, as colcheias começam a balançar exatamente quando o texto iguala morrer e dormir, sobre notas de baixo pulsantes que a canção alemã da época usava para embalar. O mesmo idioma volta na peça mais longa do caderno. "Ich habe genug" e "Schlummert ein, ihr matten Augen", da cantata BWV 82, nasceram em 1727 para voz de baixo; em 1731 Bach reviveu a obra transposta para soprano. É essa versão que está ali, copiada por ela, sem cordas e sem ritornelos, reduzida a duas pautas e à tonalidade que servia à sua voz. Proibida de cantar como solista na igreja, ela levou a ária para casa e a refez do tamanho de uma sala.


Página do Livro de Anna Magdalena Bach.

Os versos nupciais “indecentes”

E então, na última página escrita, o caderno faz o gesto mais desconcertante de todos. A peça musical final é um coral copiado por ela, "O Ewigkeit, du Donnerwort": "Ó eternidade, palavra de trovão, ó espada que atravessa a alma, ó começo sem fim". Virada a folha, vêm uns versos nupciais, também do punho dela, escritos na vertical, de modo que foi preciso girar o livro noventa graus. A caligrafia ali é apressada e cheia de borrões, muito abaixo do padrão dela, como quem copia às pressas de um papel emprestado.

A primeira estrofe é inofensiva: cumprimentos à noiva, elogio à grinalda e ao vestido. A segunda não é. Cupido, "o velhaco de confiança", não deixa ninguém escapar ileso; para construir são precisos pedra e cal, e "é preciso furar os buracos"; para um galinheiro bastam madeira e pregos; e o camponês debulha o trigo "com manguais grandes e pequenos". Em alemão do início do século XVIII, Flegel, mangual, era gíria consagrada para pênis, e a graça está em "grandes e pequenos". Que o caderno de música de Anna Magdalena Bach se permita piadas de tamanho de pênis é um fato tão incontestável quanto tem sido incômodo para os guardiães do legado bachiano. Entre a eternidade e a piada de casamento não havia, para ela, contradição alguma. Havia uma página de intervalo.


Página do Livro de Anna Magdalena Bach.


A Animação: Episódio #17 – Um Novo Consolo


O episódio mostra o encontro de Bach com a jovem soprano que se tornaria sua segunda esposa e a chegada dela ao ambiente musical da corte de Köthen. É o ponto de partida da história que este post continua: quatro anos depois daquele encontro, começaria o caderno de 1725. (Canal: youtube.com/@BachTheAnimatedSeries.)

Sobre a série Bach: The Animated Series

Este episódio integra a série independente criada e animada pelo artista Peter Fielding. Nascido em Flandres e radicado na Itália, Fielding explorou a biografia de Johann Sebastian Bach através de uma narrativa visual que humaniza os desafios do compositor.

A Bach Society Brasil apresenta os vídeos da série como parte de sua iniciativa de divulgação. Para compreender os bastidores da produção e o processo criativo do autor, leia nossa entrevista exclusiva com Peter Fielding.



Real ou Ficção?

A imagem doméstica que a animação constrói, a casa dos Bach como oficina musical de família, é sólida, e vai além do que a dramatização mostra. As partes da Missa em Si menor enviadas a Dresden em 1733 foram copiadas quase exclusivamente por membros da família: o compositor, a esposa, Friedemann e Carl. Os quatro podem também ter tocado juntos.

A correção mais útil que este post pode oferecer não é sobre a série, e sim sobre o próprio caderno. A maior parte das peças pelas quais o "Livro de Anna Magdalena" ficou famoso não é de Johann Sebastian Bach. Os dois minuetos em Sol são de Christian Petzold, e isso só se soube nos anos 1970; o rondó é de Couperin; as marchas e polonaises mais lembradas são exercícios juvenis de Carl Philipp Emanuel; "Bist du bei mir" é de Stölzel; a "Aria di Giovannini" é de um autor cuja identidade permanece em disputa. Gerações inteiras de estudantes de piano, e boa parte dos métodos que usam, ainda atribuem essas peças a Bach.





Escuta Sugerida

A peça mais longa do caderno, e a única cujo caminho até ali podemos reconstruir passo a passo: escrita para baixo em 1727, transposta para soprano em 1731, e então copiada por Anna Magdalena em sol maior, sem cordas e sem ritornelos, do tamanho de uma sala. O baixo pulsa desde o primeiro compasso; no quarto, a voz também começa a repetir notas, sobre a palavra Schlummert, adormecei, encenando o sono que descreve.


A gravação é da Bach Society Brasil, no programa "Árias para Soprano", de 13 de março de 2021, com Marília Vargas (soprano) e Fernando Cordella (cravo e direção artística). É exatamente a formação doméstica do caderno: uma voz e um teclado.

Antes de ser o tema de trinta variações, foi uma sarabanda copiada num caderno de família, sem título, entre uma canção e um exercício de menino, com a mão direita reescrita na clave que uma cantora lê melhor. Ouvi-la como música doméstica, e não como pórtico de um monumento, é ouvi-la como aquela casa a ouvia.


A gravação é da Bach Society Brasil, com Fernando Cordella ao cravo, no "Concerto de Páscoa" de 3 de abril de 2021.





Referências Bibliográficas

DAVID, Hans T.; MENDEL, Arthur; WOLFF, Christoph (Ed.). The New Bach Reader: A Life of Johann Sebastian Bach in Letters and Documents. New York: W. W. Norton & Company, 1998.

GARDINER, John Eliot. Bach: Music in the Castle of Heaven. New York: Alfred A. Knopf, 2013.

WILLIAMS, Peter. J. S. Bach: A Life in Music. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

WOLFF, Christoph. Johann Sebastian Bach: The Learned Musician. New York: W. W. Norton & Company, 2000.

YEARSLEY, David. Sex, Death, and Minuets: Anna Magdalena Bach and Her Musical Notebooks. Chicago: University of Chicago Press, 2019.


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